Por que o custo é maior que o salário
O empresário iniciante muitas vezes contrata olhando apenas para o salário base combinado. É um erro comum. O valor que sai da conta da empresa é substancialmente maior, porque o Brasil concentra em cima da folha:
- Tributos (INSS patronal, RAT, Sistema S);
- Depósitos obrigatórios (FGTS);
- Provisões contábeis que a empresa pode ter de desembolsar (férias, 13º, rescisão);
- Benefícios de mercado (VR, VT, plano de saúde) que já são esperados pelo trabalhador;
- Custos operacionais (uniforme, treinamento, ergonomia, equipamento).
Entender essa composição é essencial para planejar contratações, precificar produtos e serviços e decidir entre CLT e outros modelos, como PJ ou serviço temporário. Detalhes em CLT x PJ 2025.
Os 5 blocos do custo total do CLT
1. Salário bruto
Valor mensal combinado, registrado em CTPS. Base para todos os outros cálculos. Nunca inferior ao salário mínimo (R$ 1.621,00 em 2026) ou ao piso da categoria.
2. Encargos patronais
- FGTS: 8% sobre a remuneração;
- CPP (Contribuição Previdenciária Patronal): 20% no Presumido e no Real; embutido no DAS no Simples (Anexos I, II, III, V);
- RAT (Riscos Ambientais do Trabalho): 1% (risco leve), 2% (médio) ou 3% (alto);
- Sistema S: 5,8% (SESI, SENAI, SESC, SENAC, SEBRAE, SENAT, SEST, salário-educação, INCRA), conforme atividade.
3. Provisões
- Férias: 1/12 do salário + 1/3 constitucional = 11,11% do salário mensal;
- 13º salário: 1/12 = 8,33% do salário mensal;
- Multa rescisória: 40% do saldo do FGTS em caso de dispensa sem justa causa (provisão anual).
4. Benefícios
- Vale-transporte (VT): até 6% do salário. O empregado paga essa cota, empresa complementa;
- Vale-refeição/alimentação: R$ 15 a R$ 50 por dia (média R$ 500 a R$ 1.500/mês);
- Plano de saúde: R$ 200 a R$ 1.500/mês por vida, dependendo do plano;
- Plano odontológico: R$ 40 a R$ 100/mês;
- Seguro de vida: R$ 20 a R$ 50/mês.
5. Custos administrativos
- Contabilidade da folha (parte do plano contábil);
- Registro no eSocial (evento S-2200);
- Uniforme e equipamento (variável por função);
- Treinamento inicial e reciclagem;
- Exames admissional e demissional (R$ 100 a R$ 300 cada).
Exemplo: custo real de um empregado R$ 3.000 no Simples Nacional
- Salário base: R$ 3.000,00;
- FGTS (8%): R$ 240,00;
- CPP (embutida no DAS): R$ 0,00 direto;
- Provisão 13º (8,33%): R$ 250,00;
- Provisão férias (11,11%): R$ 333,00;
- Provisão multa rescisória (3,2%): R$ 96,00;
- Vale-refeição (R$ 30/dia × 22 dias): R$ 660,00 (parcela da empresa);
- Vale-transporte (6% do salário): R$ 180,00 (parcela da empresa);
- Plano de saúde (parte empresa): R$ 400,00.
Custo total mensal: aproximadamente R$ 5.159,00 (72% maior que o salário base).
Exemplo: mesmo empregado no Lucro Presumido
- Salário base: R$ 3.000,00;
- CPP (20%): R$ 600,00;
- FGTS (8%): R$ 240,00;
- Sistema S (5,8% médio): R$ 174,00;
- RAT (2% médio): R$ 60,00;
- Provisão 13º: R$ 250,00;
- Provisão férias: R$ 333,00;
- Provisão rescisória: R$ 96,00;
- Benefícios: R$ 1.240,00 (VR, VT, plano);
Custo total mensal: aproximadamente R$ 5.993,00 (100% maior que o salário base).
A diferença entre Simples e Presumido para o mesmo salário é de R$ 834,00/mês por empregado (R$ 10.008/ano), justamente pela CPP embutida no DAS do Simples.
Faixas de custo por salário no Simples
- Salário R$ 1.621 (mínimo): custo total aproximado R$ 2.300 a R$ 2.900;
- Salário R$ 3.000: custo total aproximado R$ 5.000 a R$ 5.500;
- Salário R$ 5.000: custo total aproximado R$ 8.000 a R$ 9.000;
- Salário R$ 8.000: custo total aproximado R$ 12.500 a R$ 14.000;
- Salário R$ 15.000: custo total aproximado R$ 22.500 a R$ 26.000.
Detalhes do cálculo em calculadora de salário líquido e em variáveis da folha de pagamento.
Cuidado: empresas do Anexo IV do Simples
Atenção: empresas do Anexo IV do Simples Nacional (advocacia, construção civil, serviços de vigilância, limpeza, conservação) NÃO têm a CPP embutida no DAS. Elas recolhem a Contribuição Previdenciária Patronal de 20% + RAT por fora, como Presumido e Real. O impacto no custo pode passar de 20% + rat (1% a 3%) do salário base.
MEI contratando CLT
O MEI pode contratar 1 empregado com salário mínimo ou piso da categoria. Regras especiais:
- INSS patronal reduzido: 3% (não 20%);
- FGTS normal: 8%;
- Recolhimento no DAE-MEI (Documento de Arrecadação do eSocial);
- Custo total: aproximadamente R$ 1.700 para salário mínimo (11% de encargos).
Efeito do Fator R no Simples
Empresas de serviço do Simples Nacional com Fator R podem migrar do Anexo V (alíquotas mais altas) para o Anexo III (alíquotas mais baixas) se a folha (salários + pró-labore + encargos) for maior que 28% do faturamento. Ou seja: contratar CLT pode não só ser custo, mas também estratégia de redução tributária no Simples. É um dos poucos casos em que aumentar folha diminui carga total.
Como reduzir o custo total legalmente
- Simples Nacional Anexo III para empresas de serviço, aproveitando Fator R;
- Benefícios via PAT (Programa de Alimentação do Trabalhador) com dedução de IRPJ e imune a INSS;
- Vale-alimentação em cartão específico para não integrar salário;
- Contratação de aprendiz ou jovem aprendiz com custo reduzido;
- Home office estruturado com termo aditivo, reduzindo VT;
- Uso de estágio ou aprendiz PCD quando compatível;
- Terceirização de atividade-meio (limpeza, segurança, TI) na modalidade PJ.
Custo anual esperado
A visão mensal não conta a história completa. Ao contratar CLT, o empresário deve raciocinar em base anual, com as sazonalidades:
- 12 salários mensais;
- 13º salário integral pago em duas parcelas (novembro e dezembro);
- Férias anuais (1 mês de salário + 1/3);
- Provisão de rescisória (multa de 40% do FGTS);
- Encargos e benefícios nos 12 meses.
Para o empregado de R$ 3.000 no Simples do exemplo, o gasto anual chega a aproximadamente R$ 65.000, ou o equivalente a 1,8 salário mensal médio projetado por mês do ano. É esse número que deve entrar no orçamento e na precificação.
Erros ao calcular o custo do CLT
- Ignorar as provisões, tratando salário base como custo total (erro comum em precificação);
- Não incluir INSS patronal no Presumido/Real, subestimando em 20%;
- Esquecer o Sistema S, que pode passar de 5,8% do salário;
- Não provisionar rescisão, causando surpresa em demissões;
- Confundir Anexo III e IV do Simples (com/sem CPP embutida);
- Considerar VT como custo total (na verdade, 6% é do empregado);
- Não separar benefícios trabalhistas de indenizatórios, gerando problema em fiscalização.
Conclusão: cada CLT custa quase o dobro do salário
Contratar CLT no Brasil em 2026 significa desembolsar, em regra, de 70% a 100% a mais que o salário base. Ignorar esse fato leva a precificação errada, prejuízo mensal e demissões dolorosas. Conhecer os cinco blocos (salário, encargos, provisões, benefícios, administrativos), o regime da empresa (Simples com CPP embutida, Presumido/Real com CPP por fora, MEI com 3%) e as estratégias legais de redução (Fator R, PAT, home office) é essencial. Uma contabilidade digital ajuda a simular cada cenário antes de contratar. Veja também CLT x PJ no blog e calculadora de salário líquido.
Base legal citada
- Decreto-Lei nº 5.452/1943 (CLT);
- Constituição Federal de 1988, art. 7º (direitos sociais);
- Lei nº 8.036/1990 (FGTS);
- Lei nº 8.212/1991 (Custeio da Previdência - INSS patronal e RAT);
- Lei nº 6.321/1976 (PAT);
- Lei nº 7.418/1985 (vale-transporte);
- Lei nº 4.090/1962 (13º salário);
- Lei nº 13.467/2017 (Reforma Trabalhista);
- Lei Complementar nº 123/2006 (Simples Nacional);
- Resolução CGSN nº 140/2018 (Anexos do Simples).